O modo como você encara aquilo que você não conhece determina o tipo de pessoa que você é.
O gênio tenta compensar o seu vazio interior com a imaginação, estuda e se esforça para que aquilo que ele imagina se aproxime das coisas como elas são — ou vice-versa, para que as coisas se aproximem daquilo que ele imagina.
O medíocre coloca seu vazio interior numa gaveta onde se lê ignorância; ele tranca a gaveta, joga a chave fora e ainda xinga aqueles que supostamente o forçaram a isso — mas ninguém o forçou a isso.

Mozart morreu de nefrite, como diz a maior parte das biografias, ou foi envenenado por Salieri, como sugere o filme de Milos Forman? O que importa, se podemos ouvir, mais de 200 anos depois de sua morte, seu Concerto para Clarineta, A Flauta Mágica e a Sinfonia Concertante para violino e viola?
É algo muito atual fazer perguntas estúpidas e focalizar assuntos totalmente desprovidos de significado. A revista Caras ergueu-se sobre essa estupidez: diante de um ator, vale mais a pena exaltar sua fama do que seu trabalho — mas o que é a fama senão resultado de seu trabalho? Ah, sim, eu esqueci daquela categoria de pessoa que só tem fama, mas nenhum trabalho.
Se você aprecia o trabalho de um artista, de que vale sua fama? Se você aprecia a fama de um artista, de que vale seu trabalho?

A casa ideal
é de madeira
tem chão de tatame
e cozinha caipira
tem muitas panelas
uma grande mesa
tem árvores frutíferas ao redor, muitas
é tão tranqüila quanto um mosteiro
tem um quarto para cada pessoa
e janelas grandes
que deixam o vento passar livremente
e por isso não é limpa demais
tem poucos móveis, muita música
e nenhuma TV
pede que se ande descalço
e que se sente no chão
(ou que se deite)
tem grandes almofadas de algodão
e um sino de vento
tem ninho de beija-flor no telhado
que é de barro
tem uma escadinha na entrada
e a porta sempre aberta
tem dois gatos
um ofurô
e nenhum, nenhum vizinho

? muito f?cil ser um leitor babaca. Siga os passos a seguir:
1) Mande um e-mail para algu?m que escreve num blog. Diga, da forma mais gen?rica e oca poss?vel, que leu um texto dele e que n?o gostou. N?o argumente, apenas diga que n?o gostou. E diga que ele ? arrogante, porque emite opini?es na seguran?a e no anonimato de seu blog. Diga que ele ? irrespons?vel porque ele n?o pratica aquilo que escreve. N?o importa que seja um escritor, voc? deve cobrar-lhe a??es como se ele fosse o presidente da Rep?blica ou um empres?rio que emprega 2000 funcion?rios.
2) Quando o escritor responder seu e-mail, tentando explicar suas raz?es para escrever, apenas ria dele, fa?a pouco de suas explica??es e diga que elas s?o sintomas de uma mente perturbada. Se achar necess?rio, ria ? no e-mail mesmo, use KKKKKKKK em vez de qualquer outra onomatop?ia (se o escritor mencionar a palavra “onomatop?ia”, chame-o de pedante erudito). V? al?m, diga que ele precisa de ajuda profissional e que a escrita pode ser um interessante meio para que ele reencontre a sanidade e a vivacidade perdidas. Esforce-se para ignorar as raz?es do escritor, n?o as discuta e demonstre nas entrelinhas que voc? mal as leu. Ao inv?s, lembre-se de que ? voc?, leitor babaca, quem manda. Lembre-se sempre disso. O escritor precisa se sentir um pobre miser?vel diante de suas palavras, algu?m que tem a sensa??o de que h? algo misterioso no mundo dos leitores babacas que ele, escritor, jamais vai alcan?ar.
Thanks God, leitores babacas s? me acontecem uma vez por m?s.
Um pouco de estudo nos afasta da religião, muito
estudo nos aproxima dela. — Albert Einstein
No mercado, vejo um shampoo que deixa os cabelos 7x mais fortes. Lendo o texto da embalagem, encontro a expressão “resultados cientificamente comprovados”.
A religião nao prova nada contra a ciência. A ciência não prova nada contra a religião.
E homens sábios são considerados sábios porque conseguem aproximar ciência e religião — assuntos que ele evita considerar separadamente.
Talvez um dia as coisas sejam religiosamente comprovadas.

Em Santos a Igreja Universal construiu há poucos meses uma igreja bem em frente ao Hipermercado Extra. Uns chamam de Shopping da Fé.
Hoje à tarde passou um carro de som na frente de minha casa anunciando curas milagrosas. A mensagem dizia algo como “se você tem problema de coluna, bronquite, mau olhado, nesta quinta estaremos realizando a grande noite de curas milagrosas…”. Juro que ouvi.
Mais tarde, a caminho da padaria, passei na frente de uma outra igreja. Ouvi uma gritaria infernal vindo lá de dentro. Várias pessoas gritavam frases ininteligíveis.
Mudando de canais na TV, vejo um pastor (?) entrevistando uma ex-bruxa (?). Ela dava seu testemunho sobre magia negra e coisas do gênero. Em outro canal, de uma outra igreja, vejo um pastor exorcizando uma pessoa supostamente dominada pelo demônio.
Eu sempre tomei a religião como algo muito delicado, sutil, discreto, algo cuja prática exigia introspecção e mesmo um pouco de estudo. Mas o que tenho visto é algo muito diferente. Se alguém souber o que está acontecendo, por favor me explique.

fevereiro 26, 2005