março 31, 2006
Política, estética e tecnologia
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A música eletrônica surgiu em meados dos anos 70. Suas bases haviam sido lançadas anos antes, com o surgimento da guitarra elétrica e de diversos instrumentos acústicos cuja sonoridade podia ser modificada eletronicamente. Um simples teclado doméstico oferece uma infinidade de sons — do violão ao oboé, incluindo efeitos sonoros bizarros e instrumentos de percussão.
Processo semelhante ocorreu com a fotografia. Em algumas praças antigas, em cidades grandes, ainda se encontram os fotógrafos lambe-lambe, que fazem retratos artesanais com processos muito semelhantes aos utilizados no início do séc. XX. Hoje, além de câmeras fotográficas digitais, há diversos softwares que permitem a manipulação de fotos. As imperfeições são corrigidas ou eliminadas.
O teclado eletrônico não substitui o músico, assim como as câmeras digitais não fazem um fotógrafo. A proliferação de músicos e fotógrafos ruins deu-se na mesma medida da popularização dos instrumentos e processos utilizados por estes profissionais. Hoje qualquer pessoa pode usar um editor de imagens ou dedilhar um teclado. Aos olhos de um expert ela continuará longe de ser um músico ou um fotógrafo de verdade. Aos olhos dos leigos, contudo, ela pode passar por profissional.
Os efeitos da tecnologia sobre a política não são diferentes. O palanque pertence aos primórdios do marketing político. O candidato elevava-se diante de seus eleitores potenciais e expunha suas idéias e suas propostas; a essência da propaganda política era a oratória. Hoje, os recursos tecnológicos permitem impregnar e enganar a mente do eleitor e facilitam a tarefa do candidato, que não depende mais do próprio discurso para ser eleito. A tecnologia das gráficas tornou possíveis os banners numerosos, bonitos, coloridos e resistentes à chuva. A tecnologia de som e imagem faria inveja a qualquer cineasta dos anos 80. A publicidade utilizada em muitas campanhas políticas bebe em fontes como a programação neurolingüística e é capaz de tornar um idiota tão atraente quanto uma top model, sobrepujando até mesmo a força dos fatos.
A ética é a estética da política, é o que a eleva à condição de arte (”a arte de bem governar os povos”). O bom político é uma espécie de artista. Como tal, ele sabe que sua arte não deve ser determinada pela tecnologia, mas pela humanidade — a virtude, não o monstro mitológico. Todo o problema pode ser resumido no fato de que a cada dois anos as eleições oferecem diversas provas de que arte e humanidade não fazem parte da bagagem intelectual dos políticos. Aliás, é até engraçado colocar arte, humanidade e política na mesma frase.
Se alguém ainda duvida, veja isto.
Jornal da Ilha
março de 2006
Já faz alguns meses que tenho preferido passar à noite pela avenida Princesa Isabel. É uma forma de não ver direito o novo Fórum de Ilhabela, que, embora ainda não tenha sido inaugurado, já disse a que veio com suas insuportavelmente grandes paredes brancas. Se a intenção dos responsáveis pelo projeto era fazer uma alegoria à Caixa de Pandora, eles conseguiram. A diferença é que a Caixa de Pandora trazia as maldições em seu interior. O novo Fórum amaldiçoa a cidade sem precisar levar ninguém lá dentro. De um só golpe o prédio conseguiu alinhar-se à tendência moderna de construir caixotes geometricamente perfeitos e ao vício paulista de urbanizar as margens dos rios.
É claro que a arquitetura não tem tantos poderes; falar em maldição pode ser um exagero. Uma única obra é muito menos influente do que uma canetada de um político importante — aliás, as obras mais importantes só começam com canetadas. Mas a ausência de planejamento urbano e o descaso arquitetônico são como brincadeiras maldosas para o frágil equilíbrio ambiental desta cidade. Difícil não ver relação entre a poluição das praias, a ocupação desordenada e a presença de um caixote oficial às margens de um rio importante para Ilhabela — hoje bastante poluído. Se um Fórum, símbolo cívico importante, comete tamanha gafe ambiental, o que esperar de uma construção comum, que pretende apenas ser um teto de uma simples família? Que inspiração o Fórum representará para arquitetos e construtores que nos próximos anos construirão em Ilhabela e que assim a construirão? Qual a mensagem que o grande caixote branco transmite? Que espécie de relação entre homem e natureza o novo Fórum propõe?
Estas perguntas podem não ter qualquer importância se considerarmos os outros problemas que afetam a cidade. Mas quando o poder público erra, os cidadãos são levados a crer que o erro é uma regra — não este ou aquele erro, mas todos. O raciocínio é simples: se tal político é ladrão, não há nenhum problema eu dar uma sonegadinha aqui, não é? Se o judiciário construiu um monstrengo, por que eu não posso derrubar umas duas ou três árvores centenárias para construir minha casa de quatro cômodos? E assim chafurda a humanidade.
Talvez eu esteja sendo injusto porque o novo Fórum ainda não foi inaugurado. Ainda dá tempo de esconder o prédio com ipês, jacarandás, jequitibás e outras árvores nativas, sem falar na opção de cobrir suas insuportavelmente grandes paredes brancas com hera sim –aquela trepadeira muito usada em muros. A sugestão foi dada de forma muito singela com a pichação que um manifestante anônimo resolveu deixar numa das muralhas do novo Fórum. Ela já foi apagada, é claro, mas felizmente tive tempo de registrá-la para reproduzi-la nesta coluna. Fica o registro e a idéia para quem quiser aproveitá-la.
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Perguntar não ofende: quanto a Prefeitura cobra pelo alvará das barraquinhas que vendem CDs e DVDs piratas na Vila, todas as manhãs de sábado?
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Vende-se barraco com dois cômodos em bairro tradicional de Ilhabela. Excelentes acomodações para até seis famílias. Sólidas paredes de tijolo baiano mal assentado e madeirite, telhado de brasilit com poucos furos, área de serviço coletiva a céu aberto composta de um tanque de concreto e uma fossa negra. Valioso imóvel em área de reserva; só deslizou duas vezes até hoje. Vista para o mar de piscinas do bairro chique logo ao lado. Fácil acesso às principais rotas de fuga. Preços especiais para quem comprovar ausência de vínculos empregatícios com Ilhabela ou dispuser de um tresoitão como entrada. Exclusividade da Imobiliária Zé Ninguém.
março 30, 2006
Ilhabela tem oposição séria
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Jornal do Arquipélago
Março de 2006
Um dia depois de ter se livrado do processo que tentava cassar-lhe o mandato, o prefeito Manoel Marcos disse em entrevista a um jornal da região que Ilhabela não tem oposição séria. A julgar pelos rumos que a política tem tomado nos últimos anos, não há como discordar do que ele disse. Se eu tivesse a oposição que o prefeito teve, teria dispensado defensores. Em Ilhabela, quando um político de oposição quer convencer os outros de que estuda, de que está por dentro do que é política séria, ele cita Maquiavel, sem perceber que se trata de um dos maiores parodistas da teoria política. Se quisessem mesmo estudar, se quisessem mesmo arrotar cultura para os eleitores, esses sujeitos leriam Aristóteles, Cícero, Platão, Spinoza. Não Maquiavel.
Cheguei a escrever sobre isso em um de meus blogs (ilhabela.blogspot.com) e também em outro jornal da cidade, convencido de que a oposição em Ilhabela resumia-se àquilo que o prefeito havia declarado: uma oposição meia-boca, que tinha como missão apedrejar quem está no topo, ser do contra e amaldiçoar cada ato alheio. Mas eu me enganei. Felizmente. Ilhabela tem oposição séria.
O que é oposição séria? A oposição séria, tal como a entendo, funciona mais ou menos como o ombudsman. O ombudsman é um sujeito muito comum nos grandes jornais impressos. Trata-se daquele sujeito que joga no mesmo time do jornal, mas está lá para ouvir os leitores sobre as mancadas que o jornal deu e — last but not least — fazer uma leitura crítica das edições mais recentes, ora apontando os erros, ora os acertos. O ombudsman, que às vezes é chamado de ouvidor, está presente também em hipermercados, indústrias e órgãos públicos. Ele é o responsável pelo semancol de uma empresa ou instituição.
Num município, essa função normalmente é cumprida pela Câmara Municipal. Se cabe à Prefeitura pôr a mão na massa, à Câmara cabe não apenas fazer leis, mas também fiscalizar a Prefeitura para que as leis sejam devidamente aplicadas. Essa fiscalização acontece de diversas formas. Uma delas é, como se costuma dizer, colocando a boca no trombone, atuando como um ombudsman, sempre observador e crítico. E uma das bases da boa democracia é o duelo cavalheiresco entre prefeito e vereadores, em que os maiores vencedores são os cidadãos. O problema surge quando a Câmara não cumpre esse papel. Mas eu me referia à oposição séria.
Existe oposição séria em Ilhabela, ainda que ela não seja ativa e falante como um ombudsman. Dias atrás, por exemplo, conversei com um grande amigo que, além de ter feito análises brilhantes sobre a condição política e cultural da cidade, ainda me deu uma aula de sabedoria e elegância. A política, disse ele, não está nas sessões de Câmara, muito menos nos buzinaços e nos foguetórios, mas no caráter de quem trabalha por esta cidade. Ter cárater, ele continuou, não é ter um projeto para Ilhabela, mas antes ter valores, que jamais convivem com as exaltações eufóricas ou furiosas tão comuns àqueles que fazem a política local. Dito isto, compreendi o silêncio de meu interlocutor diante das picuinhas ilhabelenses e percebi que ele era um verdadeiro representante da oposição séria que o prefeito acredita não existir. Pensando bem, é melhor que ele continue a acreditar nisso.
Um bom dia ? uma engana??o. Um mau dia ? um press?gio. E assim cavamos nossa sepultura e escrevemos nosso epit?fio.
O que me faz pensar que ter uma carreira ? uma maneira soci?vel, suave e eufem?stica de escrever o pr?prio epit?fio.
J? imaginou que quando tudo for trevas (para voc?) voc? ser? lembrado n?o pelo que voc? ?, mas pelo que voc? faz?
Talvez sem saber e apesar de sua própria alcunha, o Sebo Redstar cometeu uma tremenda justiça ao colocar Stupid White Men em sua seção de humor. Não apenas por isso, mas também pelo generoso acervo o sebo, situado no miolo de Pinheiros, vale uma visita.

