Se a vida tivesse trilha sonora, a minha seria mais ou menos assim:
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“Quando estou conversando com esquerdistas, n?o fico na expectativa de que entendam minhas posi??es em v?rios assuntos, mas fico o tempo todo tentando ajud?-los a entender as deles.”
“Para quem j? se cansou de ouvir falar em diversidade, chegou a hora de criar uma nova defini??o de racismo. Uma boa defini??o seria: racismo ? a tend?ncia patol?gica de fazer men??es a ra?a nos assuntos em que isso n?o ? relevante, somente em benef?cio pr?prio.”
“Quando estou ca?ando e vejo um cervo por entre os arbustos, puxo o gatilho. Quando sei que ? uma pessoa, n?o atiro. Quando n?o sei se ? uma pessoa, tamb?m n?o atiro. As feministas fazem aborto mesmo sem saber se o feto ? uma pessoa ou n?o ? ou seja, elas puxam o gatilho. E ainda acham que sua moral ? superior ? dos ca?adores.”
“Nossos campi universit?rios se tornaram o ref?gio preferido dos marxistas, sobretudo porque seus adeptos jamais tiveram de sobreviver no mundo real, imagine em uma ditadura comunista. De fato, h? mais comunistas dando aula no estado de Carolina do Norte que havia na antiga Uni?o Sovi?tica.”
Trechos do artigo mais recente de Mike Adams, traduzido por Norma Braga.

“A humanidade caminha para a paz, lentamente”, diz Dalai Lama.
D?-me uma chave de fenda e eu desmontarei o mundo.
Estava em São Paulo um dia desses quando vi um punk sentado na calçada: espalhado no chão, bebia algo numa latinha amassada, vestia jeans rasgado e usava algumas peças de couro, botas e pulseiras e piercings. O cabelo em estilo moicano estava lá, assim como o rosto blasé que parecia dizer “dane-se o mundo” ou algo pior. Eis um típico punk, pensei comigo. Ao menos na aparência.
Pouco tempo atrás, muito antes da visão na capital, vi um programa de entrevistas que teve a participação de Johnny Rotten, o irlandês líder do grupo britânico Sex Pistols e um dos fundadores do movimento punk. Durante a entrevista um jovem punk criticou Rotten por ter abandonado o movimento: na entrevista ele vestia uma roupa muito discreta e o penteado não lembrava mais o cabelo desajeitado e tingido de anos atrás. Rotten já não fazia metade do barulho que fazia no início dos anos 80, auge dos Pistols e auge do movimento punk, e ainda falava em ganhar dinheiro com a indústria fonográfica. Diante da crítica, Rotten foi ácido: fazendo menção ao visual do rapaz, disse “Você acha que isso é ser punk? EU sou o punk”.
A entrevista prolongou-se pela história do movimento, embrenhando-se pelo punk rock e pela própria história do Sex Pistols. Mas já era tarde, o estrago estava feito.
À semelhança de Johnny Rotten, Che Guevara também se tornou um símbolo de rebeldia. Aprendeu e ensinou técnicas de guerrilha, desafiou a ordem vigente (ah, os clichês…), ajudou a desmontar o governo de Fugêncio Batista em Cuba e a conduzir Fidel Castro ao poder. Foi rebelde e mártir, dois elementos que eternizam qualquer idiota. Hoje, passados mais de 30 anos desde sua morte, Guevara é o queridinho dos jovens revoltados, aqueles que aprendem um punhado de jargões esquerdistas e querem sair por aí revolucionando a ordem vigente (ah, a ordem vigente…).
Poucos percebem a ironia que esses dois sujeitos representam.
Johnny Rotten não fundou o movimento punk. O punk, tal como foi iniciado pelo líder dos Pistols, significava exatamente não seguir um movimento, libertar-se dos padrões sociais, agir conforme os próprios princípios. Era, por assim dizer, um grito de liberdade, que se traduziu, para Rotten, em roupas estranhas e cabelos estragados. Mas então, outros jovens revoltados acharam o gesto bonito e o copiaram e o transformaram num padrão como os padrões que Rotten pretendia destruir.
Che Guevara, como tantos camaradas guerrilheiros, pretendia mudar o mundo. Opunha-se ao capitalismo e a tudo que lhe simbolizava lá pelos anos 50 e 60: o consumo, o imperialismo, os EUA, etc. Depois de tantos anos lutando pela causa comunista e de ter se martirizado por ela, Guevara transformou-se num kit promocional, à moda capitalista: camiseta, pôster e adesivo. Não é lindo?
Deixar-se guiar por Rotten e Guevara significa apenas dar provas da própria burrice. O único punk genuíno só foi genuíno enquanto foi único — todos os demais são cópias mal-feitas de Rotten. E Guevara, no intervalo entre um assassinato e uma guerrilha, não teria ido a um shopping center para comprar, por exemplo, camisetas com o rosto de Marx. No mínimo, os dois ícones da rebeldia teriam percebido a idiotice que representa consumir ícones, o ortodoxismo que representa homenagear a rebeldia alheia.
A própria expressão “ícone da rebeldia” é contraditória. O rebelde rejeita ícones, que, por sua vez, são informação congelada — ou o oposto do espírito rebelde. Mas o jovem que usa camiseta vermelha com o rosto de Guevara ou que usa pulseiras de couro não sabe disso. Ele não vê seu próprio reflexo nos gestos e roupas que o rodeiam e se crê único em sua rebeldia. Mal percebe ele que toda sua rebeldia resume-se a causar asco naqueles que lhe criaram e que isso não apenas não fere como também confirma o caos mundano a que ele se opte, que determina modas, roupas, idéias, gestos, vocabulários. Hoje em dia, tudo é pasteurizado, inclusive a rebeldia. Embalada para presente e vendida em grandes magazines — tamanho P?
Há pessoas que vão além na idealização da rebeldia. Afirmam, por exemplo, que Jesus era um rebelde. Vêem no Nazareno os traços que o definem como tal: disse coisas que para a época eram revolucionárias demais e desafiou os ensinamentos dos antigos. Num mundo dominado pelo dogmatismo do Velho Testamento, Jesus veio falar do Espírito Santo, da importância de trazer em si os valores expressos pelo decálogo e de transformar-se num modelo de perfeição. Pensar em pecar já é pecar, dizia Jesus. Conduzir a religiosidade a um nível tão psicológico e pessoal foi por demais revolucionário.
Mas não havia rebeldia em Cristo. Havia apenas um sentido profundo de pureza religiosa, uma percepção especial do verdadeiro sentido da religiosidade, a crença de que nenhuma rebeldia e nenhum dogma eram necessários, desde que o indivíduo vivesse conforme as orientações divinas. Deus fala através do coração. O corpo é um veículo, o espírito é o motor da vida e o único caminho para a eternidade.
A rebeldia, vista por este prisma, não passa de coisa de criança histérica. Quem, percebendo que uma vida autêntica e genuína nasce dentro de si, seguirá um idiota que faz da guerrilha sua bandeira? Quem, diante dos ensinamentos de Jesus, preferirá a rebeldia de um sujeito que tenta fazer música com palavrões e perfura o próprio corpo?
Não há nada mais sintomático da decadência de nosso tempo do que a preferência popular pela rebeldia das mini-seitas e da música, em detrimento do cristianismo e dos cuidados com o espírito.
30/08/2003
Há uma diferença muito grande entre trilhar o caminho do meio sem conhecer os caminhos extremos e trilhá-lo conhecendo-os. Aquele que escolhe o caminho médio depois de ter conhecido a perdição de um dos extremos tem o mérito da força e da coragem. É necessário força e coragem para galgar as paredes do fosso do extremismo. Difícil é reconhecer o extremismo como tal e recusá-lo, reconhecendo, ao mesmo tempo, os perigos do pólo oposto, cuja atração é proporcional à força com que recusamos o pólo original.
Não há, contudo, valor intrínseco em buscar o caminho do meio. Vida é tensão, conflito, desarmonia. A água escorre numa cachoeira porque brota das nascentes e se acumula em vales; o transbordamento é tensão e é o fluxo constante que espalha a vida pelas planícies. Algo semelhante pode ser dito a respeito dos ventos e da eterna alternância entre noite e dia. Onde não há movimento, há morte. Onde não há movimento, não há energia, não há desejo, não há porquê.
*
Se a morte é a única certeza absoluta que temos, antecipamo-la quando adquirimos outras certezas sobre nossas próprias vidas. Por exemplo, o sujeito que sabe que seus próximos 20 anos serão gastos com carimbos, formulários e ar frio, este sujeito sabe que uma parte importante de sua vida terminou. Ele sabe que está morto, já que sua vida não será exatamente como ele vislumbrara em sua juventude. Morreu nele a inquietude juvenil; ele aceitou a certeza que lhe foi oferecida. E toda certeza é mórbida.
O casamento é outra forma de antecipar a morte. No exato instante do “sim” morre conosco uma parte de nosso coração, que passa a bater com lentidão e esforço. Decerto a união amorosa proporciona realização e plenitude, mas tais coisas aparecem nessas uniões em função das incertezas que carregamos: não sabemos se somos completos, se somos dignos da companhia e do amor daquela pessoa, se a teremos sempre ao lado. Diversos “se” compõem o relacionamento perfeito, que é perfeito por ser vivo, inconstante, incerto e incompreensível.
Mas quase sempre há diante de nós apenas certezas: a vida ao lado de uma pessoa, o trabalho repetido infinitas vezes. Até mesmo as formas de escapar dessas certezas serão repetidas: trinta dias de férias a cada ano — período suficiente para fazer coisas que normalmente não fazemos, mas insuficiente para nos fazer perceber a morte a que nos submetemos nos outros onze meses do ano.
Uns poderão dizer que essas coisas também são vida. Vive-se através do trabalho — não importa qual –, vive-se através de um casamento — desde que tenhamos encontrado uma pessoa com quem faz sentido falar em felicidade mútua, o que não é tão difícil quanto pode parecer. Mas a partir daí, uma vez definidas as escolhas realmente importantes e na hipótese remotíssima de defini-las de uma forma satisfatória, a vida deixará de ser algo íntimo, interior e pessoal e será algo público, exterior e impessoal. Antes, forte e divino. Agora, fraco e mundano. A vida será medida pelo número de eletrodomésticos, pelo saldo da poupança, pelo número de prestações restantes no consórcio — cujo fim será marcado pelo início de outro consórcio –, pela idade do casamento, pelos fios brancos prematuros numa cabeça que insiste em declarar a própria juventude, pelo número de filhos ou pelas conquistas deles nas competições da escola ou no mercado de trabalho.
Não importa o que medirá a vida, o problema está em sua mensurabilidade, o que a priva de mistérios, segredos e magias — eis uma vida sem arte e oração, se isso realmente é possível. Todo o problema está na hipertrofia da vida: ela é grande demais, pesada demais, inchada demais — o que me traz à mente a imagem do bolo que, no forno, cresce demais, transborda e queima, exalando aquele cheiro caraterístico das experiências culinárias malsucedidas.
A vontade de crescer exteriormente arruina o homem e torna o mundo imprestável. Imagine um mundo em que ninguém abdica do direito de ter um carro, uma casa própria, esposa ou marido e filhos. É este o mundo em que vivemos. É questão de tempo até que todos pretendam para si as mesmas coisas que há milhares de anos todas as pessoas buscam: família, propriedades, rotina, segurança. Quando se obtêm tais coisas — e elas não são difíceis de conseguir, pois carros, por exemplo, há para todos os gostos e bolsos — perde-se o fundamental: a saúde, a serenidade, a paz. Desenvolvem-se a partir daí doenças mentais, físicas, sociais. Perde-se a vida, ganha-se um mundo doente, feito de pessoas doentes que transarão para fazer pessoinhas doentes — crescei e multiplicai-vos. E estas, acostumadas com a doença — tão acostumadas que não a perceberão como tal –, trabalharão para manter o mundo como está, em estado de coma profundo.
Talvez este seja um discurso pessimista. Sei que há coisas belas e o ato de se descabelar não torna o sujeito menos careca. Mas a porção realista dessa refeição tem sido servida fria à maioria das pessoas. A beleza que ainda existe deixou de ser algo comum, natural e simples e passou a ser algo raro. Se você vive numa cidade grande, sabe do que estou falando: o que é bom, belo e simples geralmente é colocado em embalagens coloridas e tem dois preços — um à vista, outro no cartão. Se você vive numa cidade pequena, também sabe a que me refiro: é questão de tempo até que aquela árvore frondosa tombe e dê lugar a um empreendimento de terrenos baldios; até que aquele córrego se torne espesso e pútrido; até que a elegância dos velhos desapareça com eles.
A beleza, como todas as virtudes, é algo frágil demais. É difícil mantê-la e muito fácil destrui-la — basta cruzar os braços, ligar a TV e deixar a roda da vida mover-se livremente. Sua vida — você, sua família, seus bens — poderá ganhar destaque, até mesmo nas páginas dos jornais, mas, afinal, terminará como terminam todos os periódicos: na lata do lixo, no fundo de uma gaiola, na vala comum do esquecimento. A vida é assim.
*
Nota:
1) Quando a roda da vida se move livremente, ela quase sempre passa sobre as costelas que passam por cima dos pulmões. As costelas se quebram, perfuram os pulmões e é por isso que todo telespectador tem como marca característica a dificuldade crônica para respirar e a baba que de quando em vez escorre quando ele tenta comentar algo que passa na TV.
A roda da vida é mais ou menos assim:

A Caterpillar apenas a encarou de forma irônica e utilitária, algo que toda pessoa deveria fazer desde o seu 6º aniversário.

abril 30, 2006