Férias boas são aquelas que nos levam a escrever redações do tipo “Minhas férias” sem que a professora as peça. As minhas duraram apenas 10 dias e foram muito boas.
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Apesar disso, com alguma tristeza vejo que não perdi muita coisa por ter ficado 10 dias longe da blogosfera. As eleições presidenciais engatam a segunda. A guerra no Oriente Médio. Escândalos políticos. E as pessoas — as que podem fazer algo a respeito desses assuntos e as que nunca farão, mesmo que queiram, mesmo que um dia possam fazer — permanecem a léguas de distância daquilo que realmente importa.
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Além da companhia de minha mulher e do reencontro com os amigos, três assuntos merecem comentários mais extensos: literatura, música, Aikido.
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Há muito de Beethoven nas sonatas para piano de Schubert. Não questiono a genialidade do grande Ludwig - nem tenho capacidade para isso -, mas a doçura de Schubert, que soa despretensiosa, leve e humana tem suas vantagens, sobretudo em noites solitárias. Se Mozart é o prodígio, Bach o divino e Beethoven o forte, Schubert é o doce, aquele que não hesita ao sentar ao nosso lado, improvisar e oferecer-nos um pouco de sua sinceridade. Arte é isso.
Do CD esquecido num armário e encontrado por acaso, anotei: sonata para piano em si bemol maior, D.960, e sonata para piano em dó menor, D.958.
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Um dos melhores livros que li chama-se “Vivência e Sabedoria do Chá” (SEN, Soshitsu. Vivência e Sabedoria do Chá. T.A. Queiroz, 1981.). Não por alguma qualidade literária excepcional, mas porque fala de muitas coisas raras e fundamentais. Fala do Caminho do Chá (chado), mas poderia estar se referindo a qualquer caminho de vida. A penúltima página do livro merece ser lida várias vezes, apenas para que não se tenha dúvida sobre aquilo de que a Vida é feita:
“Aos que aspiram seguir o Caminho do Chá, previnam-se contra a inveja. Colocar-se no centro das coisas, invejar os outros, tentar os outros — são procedimentos imperdoáveis. Conheça seu dever e enquanto adentra diariamente o Caminho do Chá você será recompensado com a felicidade. Quanto mais olhar para os outros, mais claramente verá sua própria posição em relação a eles. Sempre que alguma coisa desagradável acontece, as pessoas procuram mostrar-se tão boas quanto possível. Mas se nos lembrarmos do coração humilde do anfitrião numa sala de chá, pois ele conhece o sabor espiritual do chá, então esta sede persistente de poder pelo poder será vista como ela é. Saiba o que você sabe e saiba o que não sabe, pois só assim se tornarão evidentes os limites de sua força. Para alcançar o poder espiritual, agarre a oportunidade quando ela se lhe oferecer; dedique-se ao estudo e à prática. Na vida são muitos os que fingem conhecimento e desencaminham os outros. Nenhuma outra ação pode ser mais condenável. O Caminho jamais é exclusivo. Ele está aberto a todos, mas aqueles que iniciam a trilha necessariamente precisam da ajuda daqueles que já passaram por aquele mesmo caminho antes.”
Aqui, uma entrevista com Soshitsu Sen, autor do livro “Vivência e Sabedoria do Chá”.
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Havia muito tempo que eu estava longe dos treinos de Aikido. Tempo demais. Chamado a conduzir treinos novamente, pus-me a estudar e a preparar aulas. Preparar é sempre bom, mas nada é mais importante do que olhar para as pessoas e perceber-lhes as expectativas, as limitações e capacidades. Eu não havia percebido isso até este mês de Julho. Desta vez tive a felicidade de encontrar as pessoas certas, os lugares certos, os momentos certos. Deixei de lado um pouco de meus usuais temores de causar boa impressão e simplesmente fiz o que pude fazer. Se meu desempenho tivesse sido indiscutivelmente exemplar, uns teriam identificado nele o conceito Makoto: sinceridade, honestidade, devoção, pureza. Makoto é uma idéia comum não apenas às artes marciais, mas a diversas artes japonesas — como o chado, aliás.
É interessante observar que as virtudes são representadas no idioma japonês por um ou dois ideogramas (kanji). As traduções são ambíguas. Makoto, como citado acima, tem três ou quatro significados bastante elísticos. Recentemente, Sensei Antonio — que não é artista marcial — me falou de uma acepção de aiki em que os dois kanji (ai e ki) podiam representar a harmonia existente entre as duas pessoas numa união amorosa, quando ambas trabalham e se dedicam ao mesmo fim. Wabi, outro conceito comum nas artes japonesas, significa beleza e simplicidade, um tipo de simultaneidade cuja expressão na língua portuguesa nos é difícil.
Uma desvantagem da cultura ocidental em relação à cultura japonesa é a obsessão pela precisão em coisas que não precisam ser compreendidas precisamente, mas sentidas e absorvidas. Você vê um ikebana e prontamente entende o conceito de belo. Kant tenta a mesma coisa, mas não consegue.
Mas aí você sai do tatami e volta à universidade e querem que você explique por que a natureza é mais importante do que a arquitetura. E nem adianta recorrer àquele provérbio zen que diz “Cortar lenha, carregar água”…
julho 31, 2006
10 passos para criar uma sociedade de imbecis
Christian Rocha
1) Invente uma teoria
2) Invente um código visual e lingüístico para essa teoria. Dê-lhe uma forma tangível, prática e utilizável.
3) Invente uma série de produtos que contenham esses códigos.
4) À teoria, aos códigos e aos produtos deve ser associado um status que só pode ser obtido através deles.
5) Associe esse status à idéia de ser legal ou «cool» e à idéia de seletividade. Quem adquiriu os produtos, códigos e conceitos é «in». Do contrário, o sujeito é «out».
6) Elimine qualquer chance de sua criação ser associada à idéia de moda, de algo transitório. A nova onda veio para ficar.
7) A teoria, os códigos e os produtos devem ser divulgados aos poucos. Aposte na curiosidade e escravize.
8 ) Construa e venda a idéia de que você é «a fonte» ou pelo menos o veículo de uma fonte superior. Seja extravagante e deixe claro que sua criação só pode ser modificada por você. Ela não é democrática, simplesmente porque as pessoas não gostam de democracia e preferem ser conduzidas.
9) Como esse império será formado através da retórica, através dela seus inimigos serão esmagados. A construção de um código lingüístico próprio de sua criação facilita essa tarefa e a torna atraente aos olhos dos observadores.
10) Relaxe e fique milionário.
Exemplos:
- Socialismo, marxismo, nazismo, comunismo e petismo.
- Microsoft, McDonald’s, Coca-cola, Disney e empresas de marketing direto.
- Igreja Universal e outras hm… religiões.
- New Age (holismo, orientalismo, terapias e filosofias alternativas etc.).
- Gurus e palestrantes de várias espécies, de navegadores a empresários, incluindo ex-big brothers, monges, atletas, psicólogos, publicitários, headhunters e CEOs.
- Literatura financeira, administrativa ou empresarial. Qualquer obra clássica adaptada para esse fim.
- Popstars, sobretudo aqueles fabricados com esse objetivo.
- Intelectuais e ideólogos, principalmente aqueles que não abandonam o ambiente acadêmico.
- O mundinho da moda, novelas, colunas sociais e tendências.
- Gurdjieff, um exemplo paradoxal: o guru inventava doutrinas e subitamente revelava que tudo não passava de um embuste, deixando seus discípulos no vazio e com a súbita percepção da própria credulidade. No fim, a honestidade intelectual atraía mais do que a doutrina inventada, o que dá a exata medida da boçalidade humana.
Para saber mais:
- O Imbecil Coletivo, vols. 1 e 2. Olavo de Carvalho.
- A Nova Era e a Revolução Cultural. Olavo de Carvalho.
- Discurso da Servidão Voluntária. Etienne de La Boétie.
- A Rebelião das Massas. José Ortega y Gasset.
- A Revolução dos Bichos. George Orwell.
- Da Bauhaus ao nosso caos. Tom Wolfe.
Pesquisa recente do Ibope diz que Lula continua caindo, mas mantém a vitória no primeiro turno, mesmo com Alckmin em ascensão. Na região Sudeste, onde foi registrada a menor diferença entre os dois candidatos, seriam 39% de Lula contra 31% de Alckmin.
39%? Onde estão os eleitores de Lula? Além dos petistas de sempre, que balbuciam palavras vazias ao melhor estilo Chauí, não conheço mais ninguém que tenha declarado o voto no sumo apedeuta indigitado.
Em busca de informações, fui ao Orkut e li o que dizem os eleitores de Lula. Nada. Não dizem nada. Usam a tática corriqueira: agredir os adversários, todos, sem distinção. Quem não está a favor do PT está contra ele. Algo sobre mensalão? Algo sobre o lodaçal estatal? Algo sobre o neocomunismo do Partidão? Algo sobre o Foro de São Paulo? Algo sobre a estupidez das ações afirmativas? Nada. Nada a declarar, desde que o sumo apedeuta continue lá.
Quem vota em Lula? Você vota em Lula? Dê seu testemunho, diga suas razões, defenda seu candidato. Convença-me a votar nele, por favor.
PS.: Antes de mencionar os índices do atual governo, leia isto.

Certas perguntas, se colocadas na hora e no lugar adequados, n?o deixam pedra sobre pedra. Acredito que elas n?o s?o feitas e repetidas apenas por causa do lobby dos livros de auto-ajuda. Respondidas com sinceridade, elas demonstrariam a inutilidade do g?nero. Listo algumas delas a seguir. Os benef?cios s?o maiores se a pessoa fizer as perguntas para si mesma, diante de um espelho, em voz alta. A sinceridade ? proporcional ao rid?culo de uma situa??o.
1) O que voc? tem feito nos ?ltimos anos tornou sua vida melhor?
2) Aonde voc? pretende chegar fazendo o que voc? faz?
3) Por que n?o se dedicar diariamente ?quilo que se deseja?
4) Por que tendemos a crer que podemos conquistar ou realizar grandes coisas sem esfor?o?

H? uma enorme diferen?a entre justi?a e gosto. Infelizmente muitas pessoas com quem tento conversar n?o percebem isso. A moral que elas seguem ? determinada pelo gosto, de forma muito simples: se gosto, ? bom; se n?o gosto, n?o ? bom. A partir da? ? bastante simples avaliar pessoas tamb?m: se elas gostam do que eu gosto, elas s?o maravilhosas; se elas n?o gostam do que gosto, elas n?o s?o maravilhosas. Simples assim.
N?o s?o a viol?ncia, a imund?cie, o rancor e o mau-gosto as principais marcas de nosso tempo. ? a injusti?a. Ou melhor, a falta de senso de justi?a.
Ontem vi um pedestre atravessar quando o sinal estava verde para os carros. Um motorista reduziu, buzinou e foi embora. O pedestre terminou a travessia inadequada, ergueu o dedo do meio e resmungou um palavr?o. Como se… ora, esque?a… O sujeito estava indiscutivelmente errado. Custava admitir o ?bvio e ficar quieto? Custou.
Algo semelhante j? me aconteceu algumas vezes. Quando erro, recolho-me em sil?ncio, digerindo a burrada que fiz. Quando sou v?tima do erro alheio, o m?nimo que espero ? uma atitude semelhante da outra pessoa ? embora fosse natural esperar tamb?m um pedido de desculpas.
Esta semana fui chamado de reacion?rio e de preconceituoso por uma pessoa que mal sabia o significado dessas duas palavras e que n?o se deu o trabalho de pensar alguns minutos nas id?ias que defendia. Eu n?o preciso dialogar com essa pessoa, mas pacientemente pego em sua m?o, abro o Aur?lio e aponto-lhe os verbetes de “reacionarismo” e de “preconceito”.
O estudo ? a base da justi?a. Quando voc? sabe do que ? feita a realidade, do que ? feito o mundo, o que impede que tudo seja um caos total, ent?o voc? se torna justo. E onde h? pessoas justas, h? pessoas respons?veis, h? indiv?duos respons?veis. O indiv?duo respons?vel ? aquele que trabalha para melhorar sua pr?pria vida e sabe que o que lhe acontece ?, antes de tudo, por sua pr?pria causa.
O homem respons?vel e justo ? dono de seu pr?prio destino. ? a aus?ncia do senso de justi?a que o lan?a nas m?os do “mundo”, da “sociedade”, dos “outros” ou, tanto pior, das “elites”, dos “imperialistas”, dos “porcos capitalistas”. Honestamente, ? muita fraqueza para o meu gosto. ? preciso ser muito fraco, desonesto e burro para ser injusto, para querer brigar com as pessoas ao redor antes de perceber os golpes que o sujeito d? em si mesmo.
O homem injusto ? aquele que se p?e diante do espelho e diz para si mesmo: “Voc? ? azul e ? especial por isso. O resto do mundo fede porque n?o ? azul”. Este ? um tipo de gente a ser evitado.
É bastante simples — e burro — tentar refutar uma afirmação dizendo que há outras que são mais verdadeiras e comuns.
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O novo filme de Superman seria comum não fossem as semelhanças (já bastante comentadas pela crítica especializada) da história de Kar-El com a de Jesus.
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Diante de uma pessoa mais rica, quantas pensarão em trabalhar, planejar, estudar e progredir em vez de invejar e criticar a riqueza alheia, lançar a culpa no sistema, procurar os responsáveis pelas desigualdades sociais e, claro, espernear para que o governo faça sua parte ou seja substituído por quem o faça?
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Perceba que a maioria das pessoas não gosta de pessoas. Quando não são assumidamente anti-sociais, têm a sociabilidade como uma conveniência semelhante ao salário.
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Os Sem-Floresta me fez chorar de rir, como não acontecia havia muito tempo. O desenho não é extraordinariamente engraçado, mas a crítica à vida suburbana faz sentido demais a uma pessoa que, como eu, se interessa em estudá-la.
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Estou em férias. Supostamente. As atualizações deste saite voltarão à normalidade em Agosto. Mas eu devo escrever mais uma ou outra abobrinha até lá. Aos que continuam lendo estas linhas, muito obrigado.
