Dissecando a grosseria

Christian Rocha
5 de junho de 2004

Ontem à tarde o telefone tocou. Atendi e houve o seguinte diálogo:

Sim.
Quem tá falando? — quem perguntou isso não fui eu, mas o sujeito do outro lado da linha.
Com quem você quer falar? – naturalmente tendo a tornar as conversas telefônicas mais objetivas, sobretudo com pessoas cuja voz não me soa familiar.
Quem tá falando?!?
Com quem você quer falar?
A Samanta tá aí?
Olha, eu acho que você se enganou.

Depois disso o sujeito simplesmente desligou o telefone. Sinceramente, eu não fiquei magoado e não foi isso que me fez transcrever o evento. O que me incomodou foi a absoluta falta de educação do rapaz, que não pensou em momento algum na possibilidade de ter cometido um engano e, quando percebeu que de fato havia cometido um, simplesmente agiu como se o engano não fosse seu.

No Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, André Comte-Sponville coloca a polidez como o primeiro item de sua lista. Diz ele que é a polidez que dá forma às outras virtudes. Talvez o sujeito do telefone dê amor suficiente à sua esposa, aja com boa-fé, trate seus colegas de trabalho com justiça e seja corajoso e disciplinado — para citar algumas virtudes listadas por Comte-Sponville. Mas não foi capaz de ser polido com um desconhecido cujo telefone ele erroneamente invadiu.

A polidez é o passaporte para a vida em sociedade. Uns a chamam de cortesia ou civilidade, características típicas do homem urbano — já que para o homem da terra a dimensão social da vida não é tão importante. Quando penso em cortesia, ocorre-me a imagem de alguém que cede passagem ao se deparar com outra pessoa diante de uma porta ou que cede o assento no ônibus ou no metrô para uma pessoa idosa. Há milhões de razões para agir dessa forma; há apenas uma para fazer o contrário: egoísmo. Impressiona o fato de a cortesia ser algo extremamente simples e raro ao mesmo tempo.

É possível praticar a cortesia superficialmente, como um código que deve ser seguido. Na realidade as coisas funcionam assim. O trânsito é um exemplo disso: há nele momentos adequados para o deslocamento de automóveis, pedestres e bicicletas, e uma estrutura que determina quais são esses momentos, com sinais, semáforos e espaços que dão forma a essa estrutura. Fechar-se em si mesmo, ignorando-a, causaria o caos e várias mortes.

Como um engano telefônico não implica caos e mortes, é natural que a cortesia seja deixada de lado com mais freqüência neste caso. Mas, veja, a soma de várias pequenas grosserias ajuda naquele processo ininterrupto de estupidificação do mundo. O sujeito ao telefone fez sua parte. Diariamente outras pessoas colaboram com esse processo.

– O DJ que lança uma música ruim em sua FM porque lhe pagaram o jabá correspondente e o ouvinte que, movido pela popularidade do lançamento, dá audiência e dinheiro a esse tipo de empulhação.

– As pessoas que dispensam a gratidão e a solicitude e aquelas que acham isso absolutamente normal, mesmo quando são vítimas dessa grosseria. Por favor, obrigado, desculpe — mais do que formalidade, isso é respeito.

– O político que se vende e o eleitor que vota nesse sujeito.

– O atleta que não percebe que o esporte é uma prática que conduz à vitória sobre si mesmo e que permanece numa busca pela vitória sobre o outro. E todos aqueles que lotam as marcas de largada e aplaudem as competições, com bandeiras em punho e punhos fechados diante do torcedor adversário.

– Conseqüentemente, todas as pessoas que não percebem que a vitória gera derrotados e preserva a lei da selva. Um dia elas serão derrotadas e vão cuspir no mundo o ódio que sentirão com isso.

Algumas dessas grosserias não são tão pequenas, mas todas elas são ignoradas por nós — ou convenientemente colocadas no fundo de uma gaveta. Elas apenas nos parecem pequenas. Substitui-las pela polidez não é tarefa fácil, implica desviar os olhos de si mesmo e olhar ao redor com alguma atenção. No fundo, toda grosseria é uma forma de cegueira. O mundo seria diferente se fôssemos obrigados a olhar com atenção as conseqüências dos nossos atos. Ninguém gosta de filhos bastardos.

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