Christian Rocha
6 de dezembro de 2006
À idéia surrada que diz que a pobreza causa violência tornou-se lugar-comum contrapor a relativa paz em ambientes miseráveis e à violência que grassa em ambientes ricos. Não me refiro apenas a crimes evidentes, como seqüestros e latrocínios, mas a diversos tipos de violência e de desvio moral. É adequado tomar aqui a violência em seu sentido jurídico — constrangimento físico ou moral. Imoralidade também é violência, na medida em que afeta negativamente a sociedade. Corrupção, má-fé e injustiça são desvios morais terríveis; difícil não percebê-los como formas igualmente terríveis de violência. A sociedade sempre perde quando eles são freqüentes.
Em outro escrito eu havia defendido a idéia de que não é a pobreza que causa a violência, mas sim a forma de compreender a pobreza e outros fatores sócio-econômicos (no caso do Brasil, correto é referir-se à forma de não compreender, mas deixo esta discussão para depois). O indivíduo torna-se violento não porque é pobre, mas porque encara sua condição econômica sem bases morais suficientes para evitar que ele cometa um crime. Ele escolhe o caminho do crime não por ser pobre, mas porque entende que sua pobreza é salvo-conduto para roubar e matar. Essa não-compreensão é um fruto da cultura que predomina nos meios de comunicação, nas escolas, nos discursos dos indivíduos pensantes. Por exemplo, cada vez que um indivíduo vem à TV dizer que a consciência racial é fundamental, que políticas de compensação racial são necessárias, ele planta o germe da desigualdade racial e do racismo, o que é um passo para uma sociedade de ódio e violência. Mas este é apenas um exemplo entre tantos possíveis. Comentários semelhantes valeriam para muitos dos diversos aspectos de que é feita a cultura da periferia das grandes cidades, ora admirada porque é pobre e invariavelmente só por isso.
É difícil não perceber a importância da cultura na formação da violência. A pobreza per se não gera violência. Além dos exemplos nacionais ou sociais, há diversos casos de indivíduos pobres e justos, moralmente impecáveis. A expressão “pobre porém honrado”, mesmo manquitola, é comum entre pessoas que têm consciência da importância dos princípios morais em suas vidas. São pessoas que sabem o valor do caráter, da palavra, da confiança, da reputação. São pessoas que sabem que o crime não compensa.
O que muitas pessoas não sabem, no entanto, é que a violência causa pobreza. A cultura gera violência e a violência gera pobreza. Logicamente há outros fatores. O sistema político, a educação média da população e a disponibilidade de recursos humanos e materiais para a movimentação da economia são fatores decisivos para o empobrecimento ou enriquecimento de um país. Mas talvez um dos fatores mais importantes seja a disposição da sociedade para a violência. A violência causa pobreza. Ela é capaz de tornar um país miserável num piscar de olhos.
Há alguns exemplos óbvios. Guerras e conflitos sociais internos sempre causam destruição — material, social e psicológica. Reconstruir um país submetido a um longo período de conflitos desse tipo exige dinheiro, trabalho e esforço que às vezes não estão disponíveis. Cria-se assim um círculo vicioso: uma guerra destrói e desestabiliza um país; a instabilidade causa mais destruição e conflitos sociais, que causam mais instabilidade. A conclusão é a destruição do país e sua imersão numa condição de total decrepitude social, a exemplo do que ocorre em alguns países africanos.
Mas há exemplos menos óbvios, mas simples de serem observados.
Gasta-se muito dinheiro com sistemas de segurança e de prevenção a crimes, com polícias e sistemas judiciários, com profissionais do Direito, com estruturas físicas e psicológicas para lidar com a violência. Gasta-se muito. São bilhões de reais e cerca de 50 mil mortes todos os anos — apenas no Brasil. Evidentemente as despesas não são apenas numéricas. O custo humano de viver numa sociedade violenta não pode ser medido, mas pode ser sentido. E são estas coisas — os gastos financeiros, sociais e psicológicos — que nos tornam um dos países mais miseráveis do mundo.
A blindagem de um veículo pode custar o mesmo que o próprio veículo. Um sistema doméstico de segurança pode custar alguns milhares de reais. A segurança consome dinheiro que poderia ser utilizado de forma mais digna, não fosse a presença constante da violência nas grandes cidades — que ora afeta também diversas cidades médias e já dá sinais em cidades pequenas. A violência consome recursos importantes, desestabiliza a sociedade, aterroriza indivíduos. E são estas algumas das causas da nossa pobreza.
Tente imaginar um país em que você tem a certeza de que voltará para casa sem correr o risco de ser assaltado, seqüestrado ou assassinado; um lugar em que não é necessário dar três voltas na chave; uma sociedade em que a confiança é o cartão-de-visita, a moeda comum em qualquer troca. Imagine não precisar se preocupar em defender sua própria vida, sua família e suas posses, simplesmente porque não há malfeitores dispostos a tirá-las de você. Quem quer que viva nessas condições pode se considerar o mais rico dos indivíduos.

Comentários 2
muito boa a matéria e eu concordo que a consequencia da violecia e a pobreza…
Enviado em 12 nov 2007 às 7:52 am ¶Comente