
Cérebro também quer um mundo melhor.
– O que o aluno aprendeu terá sido transmitido num contexto coletivo e ele usará esse conhecimento também num contexto coletivo.
– Mas o que há são indivíduos, não um grupo. Aliás, o que é um grupo senão uma abstração, uma palavra simples para significar uma reunião de indivíduos?
– Apesar disso, a consciência que o indivíduo tem de fazer parte de um todo maior do que ele nunca desaparece, é parte do aprendizado mesmo.
– Você quer dizer que enquanto ele estuda ou assiste uma aula, ele considera seu papel social de estudante, seu papel social de filho, seu papel social de membro da gangue a qual pertence?
– Precisamente. E todas essas considerações interferem no aprendizado e, conseqüentemente, no ensino. Não existe separação entre o estudante-indivíduo e o estudante-membro-de-um-grupo e o ensino deve levar essas coisas em consideração.
– Isso não é um exagero de abstração?
– Por que?
– Ora, em última instância, o ensino acontece de um indivíduo para outro, por mais que o professor esteja diante de uma turma de 150 alunos, não? Talvez faça sentido considerar o fato de a maioria das pessoas daquele grupo ter um perfil específico — como renda familiar ou religião –, mas não faz o menor sentido sobrepor esse fato à realidade simples e evidente de que, afinal, são indivíduos que estão ali, diante de você, ouvindo o que você tem a dizer. Não há o menor sentido em atribuir a um grupo um sentimento ou uma reação a algo que lhe foi mostrado, mas há todo o sentido do mundo em esperar que indivíduos tenham sentimentos e idéias e os expressem conforme o momento e o lugar lhes sejam adequados. A grande dificuldade de ser professor é, ao mesmo tempo, uma das poucas coisas que fazem a carreira valer a pena. Ser professor significa, a despeito das exigências programáticas e numéricas, demonstrar algum carinho por todos os seus alunos, cada um deles, individualmente, saber seus nomes, conhecer as razões que os levaram a estudar e as condições em que eles se puseram nesse caminho — e, afinal, pôr de lado a idéia de que as abstrações podem vir antes da realidade. Se você está diante de uma turma de 150 pessoas, lembre-se que são 150 indivíduos que esperam de você aquele tipo de atenção que um pai concede ao filho; não imagine e não espere que respeitar o grupo representará algum tipo de respeito a cada uma delas.
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O diálogo acima foi recriado e estendido com base num diálogo muito mais breve ocorrido em sala de aula, numa universidade pública. Ele não é todo real, mas seu miolo é. Isso é o que importa. Ele serve como exemplo da típica mentalidade esquerdista que predomina nas universidades, sobretudo as públicas.
A essência dessa mentalidade é a substituição da realidade por idéias. A reunião dessas idéias num sistema mais ou menos lógico e mais ou menos uniforme conceitualmente constitui o que chamamos de ideologia. Ser esquerdista é ter na ponta da língua o diagnóstico de todas as mazelas do mundo e debaixo do braço um projeto pronto e acabado para um mundo melhor.
Um dos obstáculos para um mundo melhor é o indivíduo. É ele — eu, você — o responsável pelos últimos traços de realismo existentes nos esquerdistas. Você abre um livro de Paulo Freire e lê a respeito do “modelo neoliberal de ensino”. Você se esquece de que isto, para ter algum sentido, deve acontecer entre a Tia Zilda e o João Marcos, da 3ª série B. Para a leitura e compreensão do que Paulo Freire quer dizer, basta saber que a Tia Zilda representa as forças dominantes e repressivas e que João Marcos, que vem a pé da casa onde mora, na periferia paulistana, representa a minoria que é obrigada a aceitar os cânones neoliberais transmitidos todos os dias em sala de aula, como experiências com algodão e feijão e colagens de papel crepom. O que acontece entre a Tia Zilda e o João Marcos é real e, por maiores que sejam as semelhanças, será um pouco diferente do que acontece entre ela e a Carolina, que é um pouco mais esperta do que o João Marcos. Esse tipo de realismo os esquerdistas chamam de reacionarismo, porque é o que impede que Paulo Freire seja considerado um gênio e que se lhe diga amém — e se assim não for, não haverá um mundo melhor, isto é, o mundo imaginado por Paulo Freire, que é totalmente diferente do mundo que ele diz que existe, de ensino neoliberal.
Seria excelente se tudo isso permanecesse nos limites das pocilgas políticas ou dos círculos acadêmicos mais retardados — imagine Dona Chauí sem poder ultrapassar as barricadas da Cidade Universitária. O problema é que essa mentalidade que substitui o sorvete de creme por “uma idéia de um sorvete de creme, fabricada por uma multinacional exploradora, que emprega funcionários em condições aviltantes” cedo ou tarde se livrará dos limites das teses e das discussões acadêmicas. Um dia esses estudantes deixarão os grupos, farão seu próprio panelaço e defenderão um mundo melhor ad nauseam.
Perceba que isso já aconteceu. Leia os jornais, preste atenção ao noticiário (àquilo que vai além da narração do fato), observe cada informação transmitida pelos meios de comunicação, sobretudo quando elas têm um “lado social”. Todas podem ser resumidas nas seguintes frases: “Este mundo é mau. Eu não faço parte do mundo mau, mas você faz. Eu sei como se faz um mundo bom. Você não sabe”. Você já deve ter pensado assim quando tinha 16 anos, provavelmente em algum momento entre tirar o título de eleitor e votar em Lula. Se você tem mais de 30 e ainda pensa assim, por favor retire-se deste site imediatamente.
Claro que não há nada de errado em querer um mundo melhor. Eu quero, você quer. O mundo seria melhor se aquele mendigo pudesse fazer três refeições por dia e cheirasse bem, se corintianos e palmeirenses andassem de mãos dadas e se o dinheiro dos impostos fosse realmente usado para o fim a que teoricamente ele se destina. Mas isso não implica um projeto pessoal de um mundo melhor, globalmente falando. Boa parte de nossa miséria intelectual se deve ao fato de estender esse desejo a todos — sim, todos — os setores do mundo. Você quer um mundo melhor, logo você estará idealizando tudo: a política nacional, a educação, a economia, as relações entre os países e a supressão das diferenças entre ricos e pobres, o comportamento das pessoas, aquilo que elas devem assistir e tudo o mais que você puder imaginar como parte dos problemas que fazem você querer que as coisas se tornem melhores. Querer um mundo melhor significa querer mudá-lo, o que quase sempre vem antes de compreendê-lo. Você não é diferente do Cérebro, o rato branco que queria dominar o mundo, mas sua inteligência, a esta altura, está mais para o Pinky, o amigo biruta do Cérebro.

Comentários 2
Muito bom ler isto. Vivo o desafio cotidiano de tentar dissecar o mundo junto com meu filho de 12 anos, tão vulnerável às lavagens cerebrais alheias.
Técnica comum de sensibilização das crianças de 1ª à 4ª série: duas fotos, uma de um casebre, outra de uma casa limpa e arrumada, com jardim na frente. Abaixo, a pergunta: em que tipo de casa você mora?
Segue-se um debate em sala, com o objetivo (ou resultado, como queira): classificar a família da criança. Dar à criança, que naturalmente ainda não está pronta para isso, a idéia de que sua família faz parte da classe dos dominadores e é responsável pela injustiça social.
Lembra-me os filhotes da cadela de “A Revolução dos Bichos”, do Orwell.
Separar as crianças de suas famílias é a mais eficiente forma de formar adeptos.
E ainda somos obrigados pelo governo a colocar os filhos nas escolas…
Apesar das minhas tentativas, vejo que é necessário que ele veja e interprete por si só a realidade, para poder formular as próprias conclusões. Antes de mais nada, é necessário que ele tente trabalhar e pagar impostos.
Acho graça porque o estranhamento dele, muitas vezes, é inevitável - eu represento aquilo que os esquerdistas abominam.
Mas, como você disse, poucos conseguem perceber certas coisas antes do cansaço existencial dos trinta anos.
Compreender antes de pensar em mudar o mundo. Vou transmitir isso pra ele.
Ah, muito boa a coletânea do Madredeus. E os outros posts musicais também.
Enviado em 25 set 2007 às 9:37 am ¶Um abraço!
Não se trata de isolar-se do mundo em estudo e meditação. Esse tipo de letargia é tudo que a esquerda quer. Trata-se de recolher-se em estudo e meditação e fazer algo. A questão é “o que fazer?”. Um bom começo é perceber como funcionam e o que fazem aqueles que acham que a atitude mais correta é mudar o mundo — e fazer algo diferente.
Bastaria, assim, trazer à luz as estratégias desses picaretas, mostrar a todos aquilo que eles realmente são. Ninguém, tendo a verdade diante de si, preferirá a empulhação genocida desses revolucionários.
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Obrigado por sua mensagem, Nisia.
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