
Se você ainda não viu “Tropa de Elite”, veja. Não pretendo falar de todas as qualidades do filme, que vão do argumento à técnica, passando pelos atores e pelo roteiro, naturalmente. O que interessa para este artigo é o que torna o filme realmente necessário, para além das questões cinematográficas. Com “Tropa de Elite”, pela primeira vez alguém veio a público dizer com todas as letras: quem consome drogas financia o tráfico e a violência. É uma idéia bastante óbvia, claro. Tão óbvia que ela se manteve oculta até hoje. Entre um baseado e outro — “só um baseadinho, que mal pode haver nisso?” — ninguém pensou que poderia estar patrocinando assaltos e assassinatos. Mas estava. “Tropa de Elite” mostra a relação entre os pequenos atos e os grandes problemas.
O que Ilhabela tem a ver com isso? Tudo. Não apenas porque vivemos numa cidade em que drogas e violência são um problema sério e crônico, mas também porque é possível que seus pequenos atos tenham relação com os grandes problemas desta cidade. É possível que você seja responsável por todos os problemas que estão ao seu redor, dos quais você reclama mesmo que não perceba qualquer culpa em você mesmo.
Agir como cidadão exemplar e cuidar da cidade são pré-requisitos para que ela melhore. Isto significa ser educado, justo e responsável. Isto significa também saber quais são seus direitos e deveres e de que forma você pode cumpri-los ou exercê-los. O direito de se divertir com seu cão não lhe dá o direito de levá-lo à praia. O direito de usar o carro certamente não aliviará o trânsito nos feriados. O direito de usufruir de praias e cachoeiras não garante que elas estejam limpas.
O cumprimento dos deveres é necessário ao exercício do direito. Se você espera encontrar praias limpas, é necessário cumprir a lei que exige que toda casa tenha um sistema de esgoto adequado. Se você espera ir à praia sem pisar em cocô, é fundamental dar o exemplo e deixar o seu cãozinho em casa quando você for à praia. Se o trânsito está insuportavelmente congestionado, a bicicleta pode ser uma boa alternativa.
É claro que nenhuma dessas atitudes o dispensa de exigir seus direitos e de esforçar-se para que as leis sejam cumpridas. Usar a bicicleta em vez do carro é uma ação cuja eficiência inclui exigir que a ciclovia ilhabelense seja concluída. Cumprir a lei que proíbe cães na praia não o dispensa de exigir que a fiscalização seja atuante. Não consumir drogas não implica ser condescendente com os “amigos” que lhe oferecem um baseado.
A lei e a justiça não aceitam meio termo. Ou você está do lado delas ou está contra elas. Não há diferença entre cumprir a lei pela metade e descumpri-la totalmente. Todo cidadão é um agente da lei; apenas nossa forma de atuar é diferente daquela que se espera do poder público. É esta a lição mais importante de “Tropa de Elite”: seu pequeno deslize hoje pode significar um grande problema amanhã, não apenas para você, mas para toda a sociedade. É esta a lição que importa para um lugar como Ilhabela, aparentemente afastado das questões de que o cinema e os telejornais tratam.
(Publicado no jornal Canal Aberto em 2 de novembro de 2007)

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