man reading newspaper

É surpreendente que não tenha havido revoltas populares contra o uso freqüente dos imperativos na comunicação. A publicidade é descarada neste sentido.

Compre, leve, ganhe, aproveite, não perca, experimente. Existe uma distância grande entre oferecer e obrigar. Quase metade das páginas de um revista é preenchida por anúncios publicitários. A mensagem desses anúncios nunca é edificante; ela sempre se limita às maravilhas decorrentes da aquisição do produto anunciado. Não que eu espere outra coisa, mas algo está errado quando nem mesmo os publicitários conseguem dizer que os produtos que eles anunciam tornam a vida melhor e que, portanto, é necessário consumi-los por eles mesmos. Quando vejo anúncios de carro penso que ter uma geringonça dessas é bom porque você ascenderá à condição de proprietário de um bem de alto custo, não porque ele tem utilidades estratégicas como buscar seu filho na escola num dia de chuva ou levar a namorada a um parque distante para uma caminhada num fim de tarde de sol. O mundo vai mal quando as pessoas começam a se preocupar mais com as coisas do que com os atos.

(O tédio, essa doença moderna, nada mais é do que a idéia de que, afinal, nada do que está ao seu redor basta, nada do que você consome saciará o apetite por novas e novas formas de gastar seu dinheiro — e pouco importa que cada uma dessas formas lhe seja apresentada como definitiva. Ontem a vitrola. Hoje o iPod. Mas de nada adianta a tecnologia se você não souber apreciar a música. A tecnologia avançou notavelmente. A música parou em algum lugar entre Palestrina e Stravinsky.)

Consola imaginar que a comunicação baseada nos imperativos possa afastar leitores e espectadores e colocá-los a fazer algo que, por instantes ao menos, seja bom, verdadeiro, útil e justo. Mas é apenas imaginação, porque no mais das vezes essa comunicação tem sido bem eficiente em sua missão de anestesiar cérebros.

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A chave da sabedoria é fazer perguntas sinceras a si mesmo e respondê-las com sinceridade. O oposto costuma ser verdadeiro: a estupidez exclui fazer perguntas a si mesmo. O sujeito simplesmente não conversa com ele próprio, não reconhece sua própria alma como alguém que pode ser amigo ou inimigo, não sabe ouvir a própria voz, não tem a coragem de se olhar no espelho senão para verificar a barba feita e o cabelo penteado.

Compreender a sabedoria e a estupidez ajuda a entender as conexões entre o homem e o mundo e, naturalmente, as diversas formas que o homem encontrou para transmitir e narrar aquilo que ouviu falar, viu ou experimentou. Essas diversas formas compõem as bases do jornalismo.

A partir disso é saudável perguntar a si mesmo se em algum momento sua vida tornou-se melhor por ter lido uma notícia na Folha de S. Paulo ou por ter ouvido a voz de William Bonner sob as luzes azuis do JN. Se de algum modo sua vida tornou-se melhor através do jornalismo, por favor me avise.

Eu me pergunto isso a todo momento, sobretudo nas vezes em que me coloco diante da TV para ver um telejornal ou quando abro as páginas dos jornais paulistanos em busca de… em busca de quê mesmo? A resposta a que eu chego é que ler jornais e ver notícias na TV jamais me levarão a qualquer lugar e que é ingenuidade esperar outra coisa. Fazer jornalismo é algo diferente de conversar e trocar idéias que brotaram de pesquisas e de reflexão. A necessidade de tornar as informações e os fatos interessantes e acessíveis é o que pauta o jornalismo, não um valor inerente a eles. Desnecessário dizer que esse critério — acessibilidade e interesse versus qualidade — não pode ser adotado sem prejuízos àquilo-que-realmente-importa.

Não espero que você largue seu jornal e/ou desligue a TV logo na hora do noticiário. Além disso, alguns comerciais podem ser bem divertidos. Mas é importante e necessário saber por que procuramos essas coisas, com que esperança ligamos a TV bem na hora da janta, com que esperança fixamos os olhos no jornal enquanto, por exemplo, uma moça nos dedica um olhar que só acontece a cada 6 anos.

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O valor das notícias e dos comerciais está naquilo que está além deles; o que eles escondem ou omitem interessa tanto quanto aquilo que é dito objetiva e claramente. O valor das notícias e dos comerciais está na possibilidade de compreendermos o mundo através daquilo que eles não dizem, através das conexões ocultas entre eles. De um lado você vê bancos e seus lucros recorde; de outro, você vê os comerciais desses bancos, onde não há qualquer menção sobre esses lucros ou sinais de que isso terá alguma utilidade para os clientes; por fim, você recebe na rua panfletos de empresas que emprestam dinheiro a juros altos. Ligue os pontos e você verá um desenho medonho diante de si. Este exercício é mais interessante do que observar a falsidade estampada na cara dos âncoras dos telejornais.

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Quando as imagens da TV são escuras você consegue ver o reflexo de seu próprio rosto na tela. A tinta dos jornais impressos sempre suja nossas mãos.

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Original da imagem aqui.


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Comentários

1 comentário to “De imperativos, reflexos e coisas sujas”

  1. Lucas on dezembro 28th, 2007 10:29 pm

    Excelente exercício de pensamento. Parabéns :)

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