
Modernidade é aquilo que permite você ter banho quente ao lado do seu quarto e comida quentinha a qualquer hora da madrugada (sabe aquela fome incontrolável que surge às 3 da manhã?). Mas ela permite também que você se torne dependente de chuveiros, de lojas de conveniência (como esse nome é moderno…), de fornos de microondas e da rede elétrica. O fato de você pagar por todas essas coisas não o conecta decentemente a elas. Ao contrário, à medida que sua ligação com a modernidade se dá cada vez mais através de práticas estritamente financeiras, à medida que o dinheiro consolida-se como linguagem universal de todas as trocas (que por definição são sempre humanas), perdem-se todas as etapas que levam da necessidade ao produto que a atende.
Em breve você não saberá do que é feita a comida congelada e como são feitos os fornos de microondas e os chuveiros. Provavelmente você já não sabe dessas coisas. No fim, você não saberá como e de quê é feita sua própria vida. Logo, você se satisfará com a modernidade e ao mesmo tempo não perceberá que se tornou mortalmente dependente dela. É curioso o contraste entre a irritação causada pelos intermináveis congestionamentos e a insistência delas em usar carros.
É bem fácil envenenar-se assim. A palavra que melhor explica a modernidade é exatamente «envenenamento». No passado, Sócrates e Sêneca envenenaram-se e puseram fim às próprias vidas por amor ao conhecimento. Hoje envenenamo-nos por abominá-lo. A modernidade faz com que morramos envenenados e abraçados à nossa ignorância.
.
Original da imagem aqui.

Eu já escrevi sobre os desenhos de Hayao Miyazaki e também já convidei vocês a ouvi-los, por isso serei breve desta vez.
Vi novamente o genial «Tonari no Totoro» (em português, «Meu Vizinho Totoro»). O desenho conta a história de duas menininhas, Satsuki e Mei, que junto com seu pai mudam-se para uma casa numa área rural. A mãe está doente, num hospital não muito distante. Totoro é um… como dizer… um totoro, uma espécie de guardião da floresta próxima que ajuda as meninas em alguns momentos de apuros.
Minha amada, que assistiu a essa obra-prima comigo, sabiamente observou que se trata de um desenho sem antagonistas. Depois, revendo na memória todos os desenhos de Miyazaki, percebo que a maioria deles não tem antagonistas. Não significa que não há tensão. A tensão, como dizem os escritores, é o que torna uma história interessante. A adversidade move os personagens, cria fatos e cria processos com começo, meio e fim. Miyazaki sabe disso. Mas «Tonari no Totoro», como outras obras geniais do mestre japonês, cria tensão sem angustiar o espectador, sem fazê-lo sofrer ou torcer para quem quer que seja. Ele não maltrata seus personagens, apenas os submete a um tipo de pressão muito comum a mim, a você, a qualquer pessoa. Miyazaki fala o tempo todo de sentimentos e de como coisas simples podem ser bonitas e de como a beleza basta para quase todos os momentos — um sorriso, um raio de sol, uma cambalhota, os rangidos da madeira de uma casa velha, o barulho d’água, girinos, bolas de fuligem (os «makkuro kurosuke», que magicamente são vivos e espertos e reaparecem anos mais tarde em «Sen to Chihiro no Kamikakuchi»).
Todas estas coisas me fazem pensar que Miyazaki é um mestre deste mundo. Nós é que não somos deste mundo porque o observamos com uma lupa moderna demais, artificial demais, rígida demais. «Tonari no Totoro» é uma história para criança — em especial aquela que cada um ainda traz dentro de si.
.
Original da imagem aqui.

Opa. Lá vai.
– São Paulo tremeu de verdade no dia 15 de maio de 2006.
– Terremotos no Brasil seriam um bom começo. No zero o país já está faz tempo.
– O terremoto de terça foi jeca demais. Igual a esse deve acontecer uns quarenta todos os meses no Japão. E lá eles sabem o valor que há em casas pequenas e levinhas. Aqui nós já tivemos a chance de aprender a lição sem apanhar. Agora já era.
– Depois de ter certeza («oh, sim, foi um terremoto… [bocejo]»), eu sonhei pela enésima vez com tsunamis. Interpretadores têm livre acesso à área de comentários. Aceito números para a mega-sena.
– No próximo capítulo: Godzilla vs. Gamera na Baixada Fluminense. Também seria um bom começo.
.
Original da imagem aqui.

Ouvir música em algum gadget assemelha-se ao que as crianças fazem quando não querem ouvir os sermões de seus pais. Elas tapam os ouvidos e saem gritando «lalalalalalalalala». A relação que a maioria das pessoas têm com a música em seus tocadores digitais (celulares, iPods e outros mp3 players chineses etc.) e a cidade é a mesma que algumas crianças têm com seus pais, com as broncas que eles lhes dão e com a gritaria de ouvidos tapados. Elas não querem saber; você também não quer saber. Eu também não quero saber.
*
Quase todos os problemas que você considera seus — principalmente quando lê notícias, quando está preso no trânsito, quando é assaltado etc. — não são seus. O problema não é ser individualista e egocêntrico. O problema é não ser suficientemente individualista e egocêntrico. O problema é ser individualista e egocêntrico sem assumir as conseqüências, isto é, sem perceber que o individualismo vale tanto para receber o salário no fim do mês como para cumprir as tarefas que o tornarão digno desse dinheiro, tanto para comer brigadeiro como para engordarr. Você pode querer ter um carro de quatrocentos mil dólares, mas não há nada que esse carro tenha ou faça que libere as ruas e avenidas às 6 da tarde.
*
Bom mesmo é ser individualista ao ponto de perceber que a solução definitiva para os engarrafamentos é sair do carro ou ônibus e ir a pé e que a solução definitiva para os desentendimentos é prender os olhos nas páginas de algum bom livro e os ouvidos em boa música, de preferência com fones de ouvido.
*
Individualismo sem autoconsciência é uma espécie de esquizofrenia. Você pode ser individualista, mas não pode ignorar o mundo, tampouco o fato de que você está nele. Certas verdades simples como o risco de ser atropelado ao atravessar uma avenida movimentada ou o prazo finito para concluir aquele serviço (e o seu salário depende dele) são suficientemente simples e verdadeiras para que não haja dúvidas sobre a mensagem que lhe está sendo transmitida.
Que a maioria das pessoas viva naquela espécie de esquizofrenia, é sinal dos tempos. Mas eu não perco meu tempo preocupado nem com ela, nem com a alienação dos fones de ouvido (eu me aproveito deles todos os dias). Dos problemas, estes são os menores.
Não existe ninguém mais socialmente integrado do que o traficante, o assaltante e o seqüestrador.
.
Original da imagem aqui.

Eu acredito que muitos mistérios do universo serão explicados quando entendermos a relação que os gatos têm com os raios de sol. Eles sabem algo que nós jamais descobriremos em nossos banhos de sol salgados ou clorados.
.
Original da imagem aqui.

Ligação é a palavra portuguesa (lusa) para link. Você escolhe.
Este post é só de links, porque tenho algumas coisas urgentes para concluir e a areia continua descendo impassível pela ampulheta. Problema meu.
– Calvin, Haroldo e a tábua de Ouija. Não podia ser diferente…
– Levni Yilmaz ensina a terminar um relacionamento (YouTube). Animação tosca, mas verdadeira.
– Os melhores momentos de Sensei Shioda (ever), mostrando por que é tão divertido treinar Aikido (YouTube).
– PQP Bach e o fim da alta fidelidade, em artigo de Robert Levine. E você ainda acha que seu iPod é grande coisa?
– Sylvester Stallone num filme de Woody Allen?
– Como transformar um país num livre mercado em 30 dias, por Llew Rockwell. Eu tropeçaria de alegria se visse o Brasil adotando um (unzinho que fosse) destes 30 itens. E se você é daqueles que pensou «Livre mercado?!? Fala sério…», você merece algo como Cuba, Coréia do Norte ou Venezuela. Pense em emigrar.
– Artigo de Albert Jay Nock, escrito em 1936, sobre o profeta Isaías e a questão das massas (o povo, o populacho, a gentalha, a turba). Um trecho: «Se você é um educador, digamos que no comando de uma faculdade, quer acumular o máximo de alunos possível, e faz os cortes necessários nos requisitos mínimos. Se um escritor, deseja conseguir muitos leitores; se um editor, muitos compradores; se um filósofo, muitos discípulos; se um reformador, muitos convertidos; se um músico, muitos ouvintes; e assim por diante. Mas como podemos observar por todos os lados, na realização destes vários desejos, a mensagem profética é tão pesadamente adulterada com trivialidades em todos os níveis, que seu efeito sobre as massas é simplesmente fortalecê-las em seus pecados.» (meus agradecimentos à leitora Rosângela pela dica valiosa)
Original da imagem aqui.

abril 29, 2008