junho 30, 2008

Uma guinada de 360 graus

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transferidor

Ouço ao longe um sujeito discursar numa convenção partidária em minha cidade. Ele fala que é necessário dar uma guinada de 360 graus na condução dos interesses públicos (ele usa outra expressão, que eu fiz o favor de esquecer) e raramente consegue concordar sujeito com o verbo. É candidato a vereador.

Mesmo que eu suponha que ele está fingindo ignorância — porque os semelhantes se atraem e é necessário conquistar pelo menos os votos das pessoas que participavam da convenção —, lembro que a fala é sempre uma extensão daquilo que há dentro do indivíduo. Se ele fala errado por ignorância, estamos diante de um candidato ignorante. Se ele fala errado por fingimento, estamos diante de um candidato fingido. Nos dois casos nós… bem, você já sabe.

As coisas ficam um pouco mais sérias quando percebo que quase todos os candidatos falam errado e que ninguém percebeu o problema da “guinada de 360 graus”, o que me leva a crer que o que ouvi não era exceção, mas regra.

Socorro.

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Imagem obtida aqui.

coligação

Não fossem cômicas, seriam um pouco trágicas para o município as coligações e parcerias que têm sido formadas para as eleições deste ano. Não digo com isso que certas inimizades políticas devam ser mantidas eternamente ou que não possa haver convergência de interesses. As pessoas mudam, os objetivos mudam e a conjuntura muda e indica direções diferentes daquelas observadas nas eleições anteriores.

O que impressiona é perceber que não houve mudanças conjunturais significativas. As pessoas continuam as mesmas e os objetivos são iguais aos da eleição passada. A despeito disso, os dois sujeitos que ontem não se bicavam, hoje aparecem nas fotos como melhores amigos — unidos para conquistar o poder público municipal. Aqueles outros dois sujeitos, que já trocaram ofensas pessoalmente ou através da imprensa, hoje trocam alianças e seguem de mãos dadas para o pleito de outubro.

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o-sensei

Conversamos no treino de ontem a respeito das relações entre corpo, mente e centro. Nosso sensei destacou a importância do uso do centro nos movimentos e nas técnicas e um de meus amigos perguntou-lhe se o que se move é o corpo ou o centro.

Pedi licença a nosso sensei e respondi que as diferenças entre mente, corpo e centro surgem por razões muito didáticas, surgem porque simplesmente não entenderíamos esses elementos se não os tomássemos dessa forma, como elementos estanques. É uma necessidade muito humana a de esmiuçar coisas que só existem inteiras. Não existe, por exemplo, corpo e mente separados. Não existe centro e corpo como partes distintas, mesmo que de uma única coisa, pois o centro do corpo jamais pode ser visualizado ou vislumbrado como tal, como um ponto geometricamente perfeito e passível de reprodução por outras vias (gráficas, por exemplo). E, portanto, não existe o movimento do corpo e o movimento do centro: quando um se move, o outro também move-se porque os dois são uma única coisa.

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junho 26, 2008

Timing é tudo

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ulisses rocha

Ouço neste momento uma música do violonista Ulisses Rocha chamada “A voz no telefone”, composta nos anos 80 (ouça-a; o link aí leva à página de download).

Se tivesse sido composta algumas décadas antes, a música se chamaria “A voz na minha orelha”. Se tivesse sido composta hoje, o nome seria “A voz no smartphone”.

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Imagem obtida aqui.

junho 20, 2008

Janelas abertas

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open window

A vantagem de escrever coisas cada vez mais pessoais é livrar-se da obrigação de mentir. Eu não preciso inventar assuntos, fingir interesse por coisas que na melhor das hipóteses tornam a passagem do tempo mais suportável, aplaudir coisas sérias demais que só interessam a pessoais sérias demais.

Os riscos de mostrar-me como sou, um sujeito ordinário, são compensados pela chance e pela alegria de poder dedicar-me às coisas de que realmente gosto e de tornar-me um pouquinho menos ordinário, s’il vous plaît.

Eu disse, por exemplo, que não mais trataria de notícias aqui. O Governo Federal merece tanto espaço aqui quanto em minha casa ou em meu subconsciente. O mesmo vale para atualidades atuais demais ou quase tudo aquilo que reluz artificiosamente, como páginas de revistas, a imagem das TVs e carros recém-saídos das concessionárias. Esse brilho não existe em pessoas autênticas, porque elas não se importam com a sujeira delicada das estradas de terra e das imperfeições alheias — porque elas não escondem as delas próprias e não têm nojinho de andar (descalças ou com charmosos chinelos de dedo vermelhos) em estradas de terra e se você lhes pede para andar uma milha, elas andam contigo duas, três ou mais.

Diante disso tudo, é razoável que eu fale da única coisa que eu realmente conheço: eu mesmo. Não há nisso a presunção de que sou tão interessante quanto os assuntos realmente importantes que têm aparecido neste site. Há nisso uma verdade simples: a única forma de não mentir e de não falar de assuntos que eu não conheço é falar de mim mesmo, esperando naturalmente que o leitor a quem eu não interesso seja tolerante e sinta-se à vontade para ler outra coisa — és bem-vindo a qualquer momento, sabe.

Em essência, o que faço aqui é o que faço todos os dias: deixo a porta e as janelas abertas. Às vezes chove dentro e o vento já entrou quebrando coisas preciosas, mas há pássaros que pousam sobre a minha mesa e de meu posto sempre dá para ver o céu.

Eu não vou escrever em miguxês (o que seria ofensivo) e também não vou mostrar minha gaveta de cuecas (o que seria grotesco). Mas não vou esconder e fingir, insinuar e ironizar («Seja o seu sim, sim, e o seu não, não; o que passar disso vem do Maligno»), não vou esconder coisas importantes se a única razão para escondê-las for vergonha (que também é egoísmo) — o que não implica expô-las por puro exibicionismo ou por orgulho bobo de fazer algo que milhões de pessoas sabem fazer melhor do que eu.

Eu sei que valho pouco, mas sou tudo que tenho.

A graça de expor coisas pessoais é expor-se ao risco de aperfeiçoá-las e com isso aperfeiçoar a própria vida. Não são poucas as chances de que passe aqui alguém que sabe muito mais do que eu das coisas que estudo e às quais me dedico. Logo, há chances de torná-las melhores para mim mesmo.

Também há chances — menores, é claro — dessas palavras servirem para outras pessoas da mesma forma que descrevi acima. Já houve quem encontrasse aqui uma boa leitura, uma boa imagem, uma boa idéia, uma boa orientação. É raro, mas acontece. E nestes casos, mesmo tão poucos, este site fica automaticamente justificado e ficam automaticamente perdoadas as bobagens que fiz meus oito leitores fiéis tolerarem. Minha gratidão, portanto.

Bom, tem muito mais aí embaixo.

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junho 16, 2008

Confúcio diz

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bengala luvas chapéu

«A verdadeira felicidade consiste em chegar a tempo neste lugar»

A frase acima não estava nos Analectos, mas sim num banheiro de rodoviária.

(Imagem obtida aqui)

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