– Encontrar algo que lhe faça bem e que lhe proporcione prazer, que faça bem às outras pessoas e que você possa e queira fazer por toda a vida.
– Pensar em qualquer coisa, desde que a mente saiba quem manda em quem. Falar apenas coisas boas. Pensar é filosofia, meditação e autoconhecimento. Falar é sociabilizar-se, interagir, conquistar, compartilhar e oferecer.
– Não é necessário começar pelo corpo, desde que se reconheça sempre e em tudo que se faz a dimensão física presente em todas as coisas. “De dentro vem o que por fora se revela” (Lao Tzu).
– Prazer é um indicador, não a base de um código moral. Quando uma pessoa defende as benesses do hedonismo, tente descobrir nela as seqüelas de uma vida de excessos — invariavelmente você as encontrará.
– Não há problemas em não estudar. Nem todos precisam entender de filosofia ou geopolítica. O problema está em não evoluir. O problema está em não conhecer um pouco mais a própria natureza a cada dia e não se reconhecer hoje como alguém menos burro do que ontem. Para isso honestidade e a consciência das vantagens de evoluir — isto é, a certeza de que ser bom é bom e de que você está longe de ser suficientemente bom.
– A sabedoria se expressa de diversas formas. Mas há muito mais formas pelas quais ela se cala.
Você nunca sabe se deve colocar todas as fichas num único número ou se deve dividi-las em vários números — correndo o risco de dividir assim sua fé em várias partes e perder inevitavelmente.
Você nunca sabe se aquela é a melhor direção a ser seguida e o resultado obtido com a escolha lamentavelmente exclui a comparação com o resultado que seria obtido caso você seguisse a outra direção.
Você nunca sabe se é feliz o suficiente, se deve aceitar serenamente tudo o que tem — inclusive as coisas ruins — e se este é o melhor dos mundos.
*
A embalagem de batata frita sugere que o comensal se pergunte o que ele pode fazer para tornar o mundo melhor. Se era para levar a sério a questão, um bom começo seria não comprar batatas fritas — principalmente aquelas de saquinhos, que têm sal, gordura e corante em excesso e geram lixo. Mas, stricto sensu, o melhor começo seria ignorar baboseiras desse calibre.
Enquanto a maioria das pessoas se pergunta como fazer um mundo melhor, você, que é um pouco mais esperto, segue fazendo pequenas coisas melhores a cada dia: uma refeição melhor, uma postura melhor, um trabalho melhor, uma voz e uma fala melhores, um sono melhor, um pensamento melhor. Estas coisas você conhece. Você pode não saber de um monte de coisas, como eu disse no início, mas você sabe muitas coisas e parece adequado e bom dedicar-se a conhecê-las cada vez mais e torná-las cada vez melhores. Se hoje, por exemplo, você consegue caminhar 10km sem se cansar, talvez amanhã você consiga chegar a 12 ou 15km e isso será muito bom.
*
Não existe bem suficiente. Nada é suficientemente bom. Nenhum caminho é finito e é bom que você saiba se é finito o caminho em que você se encontra hoje. Ascese — acredite, isto é importante — inclui fazer algo que continuará quando você se for.
A possibilidade constante de auto-superação é mais importante do que a auto-superação mesma, geralmente isolada, superestimada e pontual. Você não precisa quebrar seus próprios recordes, mas precisa — porque assim se constrói uma vida — dedicar-se a todo instante como se esse recorde pudesse ser quebrado a qualquer momento ou apenas como se não houvesse recordes a serem quebrados. A glória que você busca não é a da auto-superação, mas a da prática, do esforço, da ascensão, pequena mas constante, lenta mas firme.
*
“A mente faz parte daquilo que é percebido e não tem poder próprio de perceber” — Yoga Sutra 4.19, Patañjali.

Ouço alguém dizer: “deve-se ir aonde o coração manda”. Mas o que é o coração senão uma desculpa para caprichos, lirismo e imprudência?
Quem conduz o indivíduo são as pernas, cujos movimentos são determinados pelo cérebro. O coração faz o sangue chegar a cada uma dessas partes do corpo, sem indicar ou determinar direções.
Entendo, é claro, que quem sustenta a frase que abre este post toma o coração como metáfora para desejos profundos e irresistíveis, para o tipo de emoção que leva as pessoas a fazer coisas inimagináveis ou inesperadas. Mas esse coração — ou essa metáfora — nunca nos diz para ficar em silêncio, na penumbra dos primeiros minutos da manhã. Ele nunca nos mostra o valor da rotina, da trivialidade e das coisas simples. Esse coração busca riscos, sobressaltos, montanhas russas e penhascos.
Na verdade, esse coração simbólico deveria ser mandado para um monastério ou uma escola de boas maneiras, submetido a rotinas de jejum, oração e trabalhos braçais. Se dependesse dele, todos morreríamos belos, fortes, exultantes — e jovens.
.
Imagem obtida aqui.

Eu nunca acreditei em fazer uma coisa chata e rentável por muitos anos, juntar dinheiro e depois — só depois — investir naquilo que se gosta. Não vejo bons exemplos ao meu redor e o que ocorre na maioria dos casos é que essa coisa chata e rentável acaba escravizando e degradando a pessoa ao ponto de estragar nela aquela paixão que ela possuía por várias outras atividades que poderiam ter feito dela uma pessoa muito melhor e mais realizada. E, claro, ela nunca mais volta a fazer essas coisas ou as faz no máximo como hobby, como diversão de horas vagas.
*
O mais importante é você de fato ser uma pessoa digna, um mestre hábil, competente, amoroso, sábio e iluminado. Se você é isso, as pessoas vão até você e lhe pagam bem. E talvez eu não mereça ganhar dinheiro e ter uma vida boa se eu não puder ser uma pessoa com essas qualidades.
*
Eu não me sinto em condições de trabalhar para me aposentar um dia. Eu me sinto em condições de começar algo ou dar seqüência (como no caso das coisas que acho que sei fazer) a algo que eu sei que eu vou fazer pelo resto da vida — não porque será necessário, mas porque eu realmente vou querer fazer isso pelo resto da vida, até o fim da vida.
*
Trata-se de um assunto indigesto. Conversar sobre ele é uma forma de reafirmar ou confirmar minha incompetência para levar adiante as coisas que idealizo e desejo pra mim. Como não consigo levar adiante, eu falo ou escrevo ou resmungo. Ser pago para falar, escrever ou resmungar e transformar estas coisas numa carreira respeitável dependem de muita sorte.
*
Eu aprenderia a gostar do que faço — sem me preocupar se se trata de algo que me fisgou a alma ou não — se já não gostasse tanto de fazer algumas coisas e se não soubesse que elas podem funcionar como uma carreira para vida toda — algo que eu nunca tive.
*
Talvez as coisas sejam mais fáceis quando não se tem escolha.
.
Imagem obtida aqui.

Todas as dificuldades da vida podem ser resumidas da seguinte forma:
Primeiro, saber se a voz interior realmente é interior.
Em seguida, saber, como nos desenhos animados, se ela é o anjo ou o demônio.
.
Imagem obtida aqui.

Sabe aquela hora em que você sente que pode ir longe apenas com a própria força do corpo? Você pedala e a sensação do ar-combustível nos pulmões é muito mais forte do que a das pernas em movimento e sob esforço constante. Você sente que pode pedalar eternamente desse jeito. A velocidade não importa; importa que o ar continua fazendo você se mover. O destino não importa; importa que você prossiga. A música preenche seus ouvidos, mas o metrônomo é a respiração. E assim, com rodas, ar e pulmões, você sabe que pode ir longe. E isso basta.
Há poucas coisas melhores do que saber que se é capaz de ir a algum qualquer lugar com a própria vontade e a própria força.
.
Imagem obtida aqui.

agosto 12, 2008

